5. BRASIL 25.7.12

1. "TRABALHO DE HRCULES"
2. MORTE E MISTRIO  SOMBRA DE CACHOEIRA
3. A FERROVIA DA CORRUPO
4. ACHAQUE AT NAS OBRAS DE ARTE
5. A DIFCIL TAREFA DE TROCAR O ALTAR PELO PALANQUE
6. TODOS PASSAM POR BH
7. UM VESTIDO PARA DILMA

1. "TRABALHO DE HRCULES"
por Cludio Dantas Sequeira

Sem fora poltica, o ministro do Trabalho, Brizola Neto, vem mostrando enorme submisso aos desejos do deputado Paulinho da Fora (PDT), que quer transformar o delegado aposentado Eudes Carneiro, denunciado por ISTO, em coordenador da comisso que analisar a concesso de registros sindicais. Seria a mesma coisa que colocar a raposa tomando conta do galinheiro. Tudo atendendo aos interesses do prprio Paulinho, que  candidato a prefeito de So Paulo.


2. MORTE E MISTRIO  SOMBRA DE CACHOEIRA

Assassinato de agente federal, morte de escrivo e desaparecimento de delegado lanam mais controvrsias ao caso do bicheiro 
Izabelle Torres e Claudio Dantas Sequeira

 ASSASSINADO - O agente da PF Wilton Tapajs foi morto na tera-feira 17. Ele monitorava a quadrilha de Cachoeira
 
O caso do bicheiro Carlos Augusto de Almeida Ramos, o Carlinhos Cachoeira, aos poucos vem ganhando os contornos de uma trama policial complexa e com vtimas reais. Desde que foi deflagrada no final de fevereiro, a Operao Monte Carlo  cercada de sinais que podem indicar uma violenta reao. H registros de ameaas a juzes e procuradores, desaparecimento de integrantes do esquema e at mortes de policiais. O enredo atingiu seu pice na tera-feira 17, com o assassinato do agente da Polcia Federal Wilton Tapajs. Ele foi executado com dois tiros na nuca quando visitava o tmulo dos pais num cemitrio em Braslia, a menos de dois quilmetros da Superintendncia da PF, onde estava lotado. O ltimo grande trabalho de Tapajs tinha sido justamente o monitoramento da quadrilha de Cachoeira. Alguns dos relatrios produzidos pelo agente foram fundamentais para flagrar as negociaes entre Lenine Arajo e Valmir Jos da Rocha, operadores do esquema, com policiais de Gois. Os dois suspeitos, Arajo e Rocha, esto soltos.

Fontes da Polcia Civil confirmaram  ISTO que uma das linhas de investigao do assassinato apura a relao de Tapajs com Idalberto Matias, o Dad, araponga que era o principal operador de Cachoeira para aes de espionagem. Dad ficou preso por trs meses e ganhou a liberdade em junho. No incio das investigaes da Monte Carlo, conforme apurou ISTO, Tapajs morou durante algumas semanas no condomnio Santos Dumont, da Aeronutica, localizado prximo  cidade-satlite de Santa Maria, no entorno de Braslia. Dad, que voltou a operar desde que foi solto, mantinha em Santa Maria parte de sua base de operaes.

DESAPARECIDO - Suspeito de ser informante do grupo de Cachoeira, o delegado Hylo Marques est sumido desde o sbado 14
 
A associao da morte de Tapajs com o caso Cachoeira preocupa o governo. Na quinta-feira 19, em reunio com a cpula da Polcia Civil do DF, o ministro da Justia, Jos Eduardo Cardozo, pediu cautela para evitar especulaes antes que a investigao seja concluda. Seguindo essa orientao, a superintendente da PF em Braslia, Silvana Borges, alegou que ainda  cedo para classificar o crime como queima de arquivo. S as investigaes vo mostrar quem so os responsveis e se a morte de Tapajs tem relao com a Monte Carlo, disse. Os acontecimentos, porm, no colaboram com a prudncia policial. No mesmo dia em que amigos e policiais enterravam Tapajs, um escrivo que trabalhou com ele foi encontrado morto em casa. Fernando Sturi Lima, 34 anos, teria se suicidado com um tiro na cabea.
 As duas mortes se somaram ao desaparecimento do delegado da Polcia Civil de Gois Hylo Marques Pereira, suspeito de ser informante do grupo de Cachoeira. O sumio foi denunciado na semana passada pela famlia de Pereira, visto pela ltima vez no sbado 14, em frente a um hotel em Goinia. No local, foi encontrado o carro do policial com uma nota escrita  mo com seu nome, dois nmeros de telefone e um destino: So Paulo. ISTO ligou para o celular, mas caiu na caixa postal. No telefone fixo, ningum atendeu. Ao depor na Assembleia Legislativa de Gois, no incio de julho, o delegado admitiu conhecer Lenine Arajo, o contador de Cachoeira flagrado por Tapajs. A Polcia Civil goiana abriu uma investigao sobre o desaparecimento de Pereira. No foi descartada a hiptese de que o delegado tenha se escondido para no ser morto. Pereira no  o primeiro do esquema de Cachoeira a desaparecer. O contador Geovani Pereira da Silva est foragido desde fevereiro e no compareceu nem sequer para prestar depoimento na 11 Vara da Justia Federal de Gois.

Ameaas de morte tambm rondam juzes e procuradores do caso. O juiz federal Paulo Augusto Moreira Leite, que iniciou as investigaes e deu as primeiras ordens de priso contra integrantes do grupo, pediu afastamento do caso em junho. Temendo por sua vida e de sua famlia, decidiu passar uma temporada no Exterior com a mulher e os filhos. A deciso de abandonar as investigaes foi decorrente do que chamou de periculosidade da quadrilha. A onda de assassinatos e desaparecimentos levou a direo do Complexo Penitencirio da Papuda a transferir Carlinhos Cachoeira para o Pavilho de Segurana Mxima (PSM). Os presidirios que vo para esse setor geralmente no retornam mais para a cela comum, porque correm risco de morte.


3. A FERROVIA DA CORRUPO

ISTO teve acesso a sete inquritos abertos pela Polcia Federal para apurar os superfaturamentos na Ferrovia Norte-Sul que provocaram rombo de at R$ 1 bilho
Claudio Dantas Sequeira

 Os desvios de verbas na ferrovia norte-sul somam R$ 1 bilho s no trecho entre Palmas (TO) e Anpolis (GO) foram superfaturados  R$ 400 milhes a obra j consumiu R$ 8 bilhes
 
No incio do ms, a Polcia Federal prendeu o ex-presidente da Valec Jos Francisco das Neves, o Juquinha, acusado de enriquecimento ilcito. Segundo os autos do inqurito da Operao Trem Pagador, ele teria comandado um esquema que desviou mais de R$ 100 milhes de obras da Ferrovia Norte-Sul, a mais extensa via frrea do Pas. ISTO revela agora que o rombo provocado pelo esquema de Juquinha, que comandou a estatal de ferrovias por oito anos, pode chegar  escandalosa cifra de R$ 1 bilho, dinheiro que teria abastecido no s as contas pessoais do ex-presidente, familiares e ex-integrantes da cpula da Valec, mas tambm o caixa de partidos como PR e PMDB. A estimativa  da prpria PF, com base numa srie de investigaes em andamento. S na Delegacia de Crimes Financeiros da Polcia Federal em Gois foram abertos sete diferentes inquritos que abarcam os quase 4,5 mil quilmetros de extenso da ferrovia. Ao longo da Norte-Sul, que j consumiu R$ 8 bilhes, correm suspeitas de superfaturamento em materiais, como trilhos e dormentes, nas aes de terraplanagem, escavaes e aterros. A PF encontrou ainda indcios de conluio entre empreiteiras, direcionamento de licitaes e subcontratao de empresas ligadas a polticos. As investigaes, que tiveram origem em fiscalizaes do TCU, da CGU e denncias do Ministrio Pblico, esto longe de terminar.
 
As investigaes indicam que s no trecho entre Palmas (TO) e Anpolis (GO), justamente o que ajudou a enriquecer Juquinha e sua famlia, foram desviados mais de R$ 400 milhes. Laudos tcnicos que compem os inquritos mostram que a estrada de ferro consumiu todo o oramento previsto nos contratos com as construtoras Andrade Gutierrez, SPA Engenharia, Constram, Queiroz Galvo e Camargo Corra. A Valec de Juquinha autorizou aditivos que atingiram o limite legal de 25% e mesmo assim a obra chegou ao fim infestada de problemas estruturais, como a falta de proteo vegetal de taludes e canais de drenagem superficial. O resultado  a eroso de reas que esto provocando a desestabilizao dos trilhos, inviabilizando o uso da ferrovia. No foram construdos oito ptios intermodais que estavam previstos em contrato. Isso significa que, mesmo os trens sendo liberados para transitar na estrada de ferro, eles simplesmente no tm onde ser carregados e descarregados.

INFLUNCIA - De acordo com delegado ouvido por  ISTO, o senador Jos Sarney e o deputado Costa Neto dividiam cargos na cpula da Valec
 
As construtoras reclamam que a obra ali consumiu mais que o previsto, por conta de desvios e da existncia de aterros moles, que acabam consumindo mais horas de trabalho das mquinas e do oramento. Da, segundo a PF, chega-se a outro problema: no h medio confivel, os mtodos utilizados so os mesmos de 40 anos atrs. Essa falha foi explorada no s pelos empreiteiros, mas pela prpria Valec, segundo a PF. O escamoteamento de custos, de acordo com os relatrios de investigao obtidos por ISTO, era processado em Braslia, no 20 andar do edifcio-sede da estatal, e se estendia ao campo de trabalho. Laudos da Percia Criminal indicam sobrepreo tanto no oramento de referncia da estatal como nas propostas das empreiteiras. A anlise de centenas de planilhas de preos feita pelos peritos apontam uma variao entre 6,5% e 48% de sobrepreo nos oramentos. 

O TCU agiu em alguns casos, como nas obras de Aguiarnpolis (TO) e Anpolis-Uruau (GO). Em ambos, determinou-se a suspenso cautelar de 10% do valor dos contratos, muito pouco, considerando o volume de recursos utilizados. O tribunal instaurou tomadas de contas especiais em contratos como o da SPA Engenharia, que se recusou a seguir as determinaes de repactuao do oramento. Um relatrio interno da consultoria jurdica da Valec, obtido por ISTO, mostra que s em dois contratos os fiscais encontraram sobrepreos de R$ 42 milhes e R$ 40 milhes, respectivamente. Desde o incio da obra, a Valec tem comprado dormentes, fabricados pelas prprias empreiteiras, a valores 40% superiores ao de outros fornecedores. Esses dados, alm de abastecerem os inquritos da PF, levaram o atual presidente da Valec, Jos Eduardo Castello Branco, a criar uma fora-tarefa para melhorar a fiscalizao das obras da Norte-Sul e passar um pente fino nas obras em andamento. Talvez por isso, desde que assumiu no lugar de Juquinha no ano passado, Castello Branco tem sofrido presses de partidos e empresrios para deixar o cargo.

O perfil tcnico do atual presidente da Valec causa desconforto para um grupo de polticos que se acostumou a gerenciar o oramento bilionrio da empresa. Escutas telefnicas feitas pela PF com autorizao judicial mostram como se articularam os dirigentes da estatal s vsperas da faxina determinada pela presidenta Dilma Rousseff, diante das denncias de pagamento de propina no Ministrio do Transportes. Em conversa gravada no dia 19 de outubro de 2011, Juquinha, ciente da iminente dana das cadeiras na Valec, telefona para seu advogado, Heli Dourado, e pergunta se ele conversou com o presidente, segundo a PF numa referncia ao senador Jos Sarney. Heli diz que Sarney conversou com o ministro duas vezes e no tem mais o que falar com ele; que ele sabe que a pessoa  sua indicada. Na conversa, Heli diz ainda que foi at a casa de Sarney para tentar evitar a queda dos apadrinhados. Segundo a PF, o presidente do Senado foi atropelado pela deciso do Palcio do Planalto.
 
Alm de presidente, Sarney  citado por Juquinha e outros integrantes do grupo pelas alcunhas de velhinho e chefe. Para a PF, no h dvidas de que o grupo usava constantemente o nome de Sarney. De acordo com um delegado ouvido por ISTO, as investigaes demonstram que o presidente do Senado e o deputado Valdemar da Costa Neto (PR) dividiam os cargos na cpula da Valec. A Ferrovia Norte-Sul, no entendimento dos investigadores, era uma espcie de menina dos olhos dos parlamentares. Quem cuidava dos interesses de Sarney nos contratos da ferrovia, de acordo com a PF, era Luiz Carlos Oliveira Machado, o ento diretor de engenharia da estatal. Responsvel por acompanhar diretamente todas as obras da Valec, Oliveira Machado  um dos principais alvos dos inquritos. Pelas investigaes iniciais, ele estaria ligado s empresas CMT Norte-SUL e Trilha Engenharia, que foram subcontratadas nos lotes 2 e 11 para fornecer maquinrio. Sarney informou, por meio de sua assessoria, que Oliveira Machado no  sua indicao e nem sequer lembra se conhece essa pessoa. Costa Neto, por sua vez, admitiu sua relao com Juquinha e a indicao para a presidncia da Valec, mas disse que no tinha nenhuma ascendncia administrativa sobre ele.

No  a primeira vez que o nome de Sarney surge em escndalos envolvendo a Ferrovia Norte-Sul. Seu filho Fernando Sarney, citado na Operao Faktor (Boi Barrica),  investigado por conta de contratos suspeitos da Valec com a empresa Dismaf para o fornecimento de trilhos. A empresa, mesmo denunciada pelo Ministrio Pblico por fraude no fornecimento de fardamento para o Exrcito, conseguiu entrar na Valec. Quem intermediou o negcio, segundo a PF, foi o senador Gim Argello (PTB) e o filho de Sarney. Um dos scios da Dismaf  Basile Pantazis, que at estourar o escndalo no ano passado era tesoureiro do PTB. Entre 2008 e o incio de 2011, a Dismaf recebeu mais de R$ 410 milhes, segundo levantamento das ordens bancrias da Valec feito pela ONG Contas Abertas. A empresa quase conseguiu um segundo contrato de R$ 750 milhes, mas a licitao foi suspensa por determinao do TCU.  


4. ACHAQUE AT NAS OBRAS DE ARTE

Ex-chefe de gabinete de Marco Maia  acusado de se apropriar indevidamente de quadros doados  Cmara
Izabelle Torres 

Na Cmara dos Deputados costuma-se dizer que alguns servidores acumulam ao longo dos anos mais poder que os prprios polticos. Jos Umberto de Almeida, chefe de gabinete da presidncia da Casa desde que Marco Maia (PT-SP) assumiu o cargo,  um desses personagens. Ao longo de 29 anos de carreira como tcnico legislativo, Almeida se tornou uma pessoa influente na Casa. Colecionou desafetos e, agora, tem sua conduta exposta. Isso aconteceu a partir de duas denncias que chegaram ao Ministrio Pblico do Distrito Federal na semana passada. Almeida  acusado por ex-funcionrios de se apropriar indevidamente de obras de arte doadas por artistas que participam de exposies na Cmara. Como uma espcie de mecenas ao avesso, o servidor, segundo a denncia, usava o cargo para selecionar quais pintores e escultores mereciam um lugar nas exposies e, em troca, exigia determinadas obras como presente. Em alguns casos, ele as comprava por preo subestimado.

A OBRA - Um dos quadros que foram parar na casa de Jos Umberto foi A Viagem ( cima), de Marysia Portinari
 
O Cdigo de tica do servidor pblico federal veda o uso do cargo para obter facilidades, favorecimentos e impede o recebimento de qualquer tipo de gratificao, prmio, comisso, doao ou vantagem. Mas a denncia, que est sendo apurada pelo MP, indica que o chefe de gabinete de Maia, ao dar a palavra final sobre os artistas que iriam expor, teria se apossado de ao menos trs obras que deveriam ter sido integradas ao acervo da Cmara. Vrios artistas, segundo consta da denncia, deram quadros a Almeida em troca do apoio. Uma das obras que acabaram na parede da casa de Almeida foi A Viagem, de Marysia Portinari, sobrinha do cone do modernismo brasileiro Cndido Portinari. A ausncia do quadro chamou a ateno de funcionrios, que comearam a pressionar o servidor. Almeida garante que pagou R$ 5 mil pelo leo sobre tela. Mesmo assim, em abril, quando o assunto j era corrente na Cmara, ele resolveu doar a obra para o acervo da Casa.

Colecionador de arte e irmo de um dono de galeria, Almeida  o padrinho da criao do chamado Gabinete de Arte, projeto que utiliza as paredes do corredor de acesso  presidncia da Cmara para exposies, sem que essas precisem passar por editais de seleo. Em regra, cada expositor deve doar uma de suas peas para compor o museu da Cmara, que j recebeu 66 obras, entre 2009 e 2012. O agora ex-chefe de gabinete  Almeida foi afastado no incio de julho  garante que nunca se apropriou das obras indevidamente e que doou tudo o que teria ganho como presente. Como podem dizer que me beneficiei, se estou doando o que tenho para o museu? Com a palavra, os procuradores.


5. A DIFCIL TAREFA DE TROCAR O ALTAR PELO PALANQUE 

A Igreja Catlica tem sido mais rgida com seus sacerdotes para conter a onda dos que pretendem disputar as eleies deste ano
Rodrigo Cardoso

Poltica  uma maneira nobre e exigente de servir ao prximo. As palavras so do italiano que ficou conhecido como Paulo VI, papa que administrou o Vaticano entre 1963 e 1978. Por aqui, no Congresso Nacional, h atualmente quatro padres fazendo poltica partidria no cargo de deputado federal. Esse nmero representa o dobro do que a casa apresentava em 2010. O avano estatstico, porm, mascara um retrocesso sentido pelos sacerdotes que desejam se candidatar a cargos pblicos no prximo pleito, em outubro. Diferentemente do que preconizava Paulo VI, fazer poltica  apesar de no configurar pecado  desagrada  Santa S e, por tabela, aos bispos diocesanos. Esses, por sua vez, fazendo valer a possibilidade prevista no Cdigo de Direito Cannico, o conjunto de normas que regulam a Igreja Catlica no mundo, tm afastado do uso das ordens religiosas os subordinados padres que lanam uma candidatura. Na prtica, isso significa o afastamento imediato de celebraes como casamentos, batizados e missas.

RESTRIES - O deputado Joo Siqueira (PT-MG) s pode fazer celebraes em capelas
 
Somente este ano, trs foram as vezes em que procos brasileiros se reuniram para discutir o quanto a relao deles com os bispos diocesanos se torna angustiosa no momento em que manifestam o desejo de disputar uma eleio por algum partido. Os eventos, batizados de Encontro mineiro de padres na poltica, ocorrem em Minas Gerais desde 1999. Tem havido um endurecimento por parte da Igreja ultimamente, afirma um dos participantes, o padre Joo Siqueira, 45 anos. Hoje deputado federal pelo PT, o religioso conta que entre 2002 e 2010, quando cumpria mandato de deputado estadual, d. Luciano Mendes de Almeida, ento bispo da Arquidiocese de Mariana (MG), o permitia realizar celebraes e, inclusive, confiava a ele a administrao de uma parquia. Dois anos atrs, o cenrio mudou ao informar o desejo de tentar a vaga de deputado federal. O bispo me disse que, se eu no abandonasse a candidatura, sofreria restries ao uso das ordens, recorda. Como no voltei atrs, o bispo s me permite fazer celebraes em capelas, hospitais ou asilos, por exemplo.

"Mesmo que algum padre abandone a poltica, o retorno ao posto no  garantido" - Dom Delson Pedreira, de Caic (RN)
 
O argumento mais utilizado pela alta cpula catlica  o de que a poltica divide a comunidade religiosa. Os padres se tornam lideranas em comunidades e a Igreja tem medo de perd-las para a poltica, opina o padre Jocimar Dantas, que tentar a reeleio a prefeito de Serid (RN). Na diocese de Caic (RN), o bispo d. Delson Pedreira, afirmou que, mesmo que algum padre abandonasse a poltica, o retorno ao antigo posto no era garantido. H 11 anos como sacerdote em Bragana, cidade a 220 quilmetros de Belm, no Par, Nelson Magalhes sofreu isso na pele. Perdeu a eleio  prefeitura, em 2008, e diz que s conseguiu assumir as funes religiosas que desempenhava antes da derrota nas urnas aps uma interveno do conselho presbiterial da diocese local.  


6. TODOS PASSAM POR BH

Personagens centrais da disputa presidencial de 2014 medem foras na eleio da capital mineira. O racha entre PT e PSB locais nacionalizou a campanha
Pedro Marcondes de Moura 

At o final do ltimo ms, a reeleio do prefeito de Belo Horizonte, Mrcio Lacerda (PSB), apoiada por PT e PSDB, era considerada favas contadas. O racha entre o PT e o PSB locais, no entanto, alterou totalmente o quadro eleitoral na capital mineira. A disputa ganhou ares de embate nacional ao levar para o jogo potenciais candidatos a triunfar na corrida presidencial de 2014: o governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB) e o senador Acio Neves (PSDB), articuladores da reeleio de Lacerda, e a presidenta Dilma Rousseff, que se transformou na principal madrinha da candidatura de Patrus Ananias (PT). Ao lado de So Paulo, a disputa tornou-se determinante para quem est de olho na eleio para o Palcio do Planalto daqui a dois anos. Graas  articulao de Dilma, Patrus Ananias tambm ter o apoio do PSD de Gilberto Kassab e do PMDB de Michel Temer, outros dois importantes protagonistas polticos da prxima eleio presidencial. 

A presidenta Dilma elegeu a capital mineira como sua prioridade, pois entende que sua reeleio comea a ser jogada durante a disputa eleitoral de BH. Principal cabo eleitoral de Lacerda, Acio deve rivalizar com ela em 2014. E o socialista Eduardo Campos, outro apoiador do atual prefeito, tambm comea a ganhar musculatura poltica, seja para um vo solo ao Planalto, seja para ocupar a vaga de vice em uma das chapas, que pode ser at a de Acio, numa dobradinha PSDB-PSB. Por isso, alm de atrair o PMDB e o PSD, a presidenta comandou pessoalmente a entrada de Fernando Pimentel, ex-prefeito de Belo Horizonte e ministro do Desenvolvimento, na campanha, removendo arestas no PT local. Pimentel era at pouco tempo desafeto de Patrus. Com uma vitria petista na cidade, Dilma conquistaria um palanque privilegiado e, ao mesmo tempo, prejudicaria dois possveis rivais.

INBIL - Sem visibilidade, governador de Minas Gerais, Antonio Anastasia, no conseguiu manter aliana costurada por Acio Neves
 
A reeleio de Mrcio Lacerda tambm virou um teste de fogo para o senador Acio Neves. Em caso de vitria, Acio consolida seu poder poltico em Minas Gerais. Em caso de derrota do prefeito, no entanto, Acio corre o risco de perder sua mquina poltica, o que diminuiria sua fora para concorrer  Presidncia da Repblica. O desfecho da eleio na capital mineira nortear o futuro poltico de Eduardo Campos, que h tempos se cacifa com uma estratgia pendular de ora apoiar o PT ora marchar ao lado do PSDB. 

O estopim para o racha entre o PT e o PSB foi a deciso socialista de rejeitar a exigncia petista de coligar-se tambm na disputa  Cmara Municipal. Faltou tambm habilidade poltica ao governador Antonio Anastasia (PSDB), gestor de um governo sem visibilidade, para manter a ampla aliana costurada por Acio no passado. Foi o sinal verde para o PT lanar a candidatura de Patrus. Agora, os personagens centrais de 2014 passam pela eleio em BH. O jogo presidencial j comeou.


7. UM VESTIDO PARA DILMA

Ex-guerrilheiro curdo, embaixador do Iraque aguarda audincia no Planalto para entregar roupa tpica  presidenta
Adriana Nicacio 

No Brasil desde outubro de 2010, o embaixador do Iraque, Baker Fattah Hussen, no v a hora de ser recebido pela presidenta Dilma Rousseff. Na audincia oficial, cuja data ainda depende de confirmao do Palcio do Planalto, Baker levar um longo vestido de seda colorido, bordado  mo com delicadas lantejoulas douradas. Trata-se de um traje de festa usado pelas mulheres curdas. Na avaliao de Baker, a histria de superao curda no Iraque se assemelha com a de pessoas como a presidenta Dilma Rousseff, que pegaram em armas para enfrentar regimes ditatoriais. Estou ansioso para entregar esse presente por tudo o que a presidenta representa, disse o embaixador. O gesto seria impossvel h uma dcada, quando os curdos eram considerados inimigos do regime iraquiano e quase foram exterminados. Em 1980, recm-formado em qumica, Baker sentiu-se obrigado a aderir  guerrilha, que comeava a se instalar nas montanhas de Sulaimaniya, na regio do Curdisto, norte do pas. Pela sua formao, logo foi alado ao topo da liderana da resistncia, traou estratgias com seus companheiros, enviou cdigos cifrados por rdios clandestinas, lutou e conseguiu sobreviver a nove anos de luta armada. No queramos a guerra, mas no havia dilogo. Os curdos analfabetos eram presos. Os que sabiam ler, degolados. Vilas inteiras foram destrudas. Minha me e meu irmo foram presos e eu precisei lutar para viver, disse Baker. 

O diplomata conta que, todos os dias, sua meta era simplesmente manter-se vivo. Para isso, passava semanas sem poder descer das montanhas, escondido dentro de cavernas e s saa  noite para beber leite de cabra e comer po. A fase mais difcil foi entre 1980 e 1984, quando cerca de cinco mil peshmergas  nome dado aos guerrilheiros que significa em curdo aqueles que enfrentam a morte  viviam sem nenhum tipo de ajuda estrangeira. Mas tambm foi uma poca feliz para ele, quando conheceu a tambm guerrilheira, hoje embaixatriz, Kajal Ahmad Ali, mulher de olhar firme, cabelos compridos e traos elegantes. Em 1985, a fora curda contra Saddam triplicou. As pessoas saam das cidades em direo s regies proibidas e a guerrilha tinha mais de 15 mil militantes. O governo iraquiano havia mandado evacuar toda a rea de fronteira com a Sria, Turquia e o Ir, e era justamente nesse local que eles se concentravam. Todo o nosso povo nos ajudou. Quando descamos das montanhas, encontrvamos casa e comida. Foram tempos duros, mas desfrutei de uma liberdade indescritvel, diz Baker.
 
Com marcas pelo corpo de estilhaos de bomba e sem poder dobrar dois dedos da mo esquerda, Baker conta que chegava a passar 14 horas seguidas com o fuzil em punho. Lembra em particular de uma manh em novembro de 1987, quando os soldados de Saddam Hussein jogaram armas qumicas contra seu grupo. Quando caem no cho, as bombas qumicas estouram e se dividem em grandes pedaos. A fumaa tem um cheiro especfico. Mas s sabia disso porque sou qumico, conta. Em maro de 1988, cinco mil curdos de Halabja no tiverem a mesma sorte.
 
Os curdos so descendentes do antigo Imprio Persa e, a exemplo dos palestinos, buscam a formao de um Estado prprio com mais fora desde 1960. Em 1986, a campanha de Anfal, cujo nome saiu de um captulo do Alcoro que significa pilhagem de guerra, matou mais de 200 mil curdos. Na guerrilha, ramos um para cada 200, 300 soldados, afirma Baker. Em 1989, Baker pediu asilo poltico ao Ir e foi nomeado representante do seu atual partido, a Unio Patritica do Curdisto (UPK). Depois seguiu para Espanha, Itlia e, em 2009, no governo do atual presidente, o curdo Jalal Talabani, foi nomeado ministro de Assuntos Exteriores em Bagd, de onde seguiu para o Brasil. Aqui  o paraso, diz.
 
Na visita  presidenta Dilma, alm do presente e de sua histria, Baker diz que vai levar nmeros de grande interesse para o governo brasileiro, que em maro inaugurou uma embaixada em Bagd, depois de 21 anos sem representao diplomtica. Um relatrio da Arab Investment and Export Credit Guarantee Corporation mostra que o Iraque dever crescer 12% este ano, o melhor desempenho do mundo rabe.
